Tradução capciosa

Fonte: Verbo Solto

Um modelo de carta de leitor
Postado por Luiz Weis em 5/8/2007 às 1:11:00 PM

Cartas de leitores na mídia impressa e mensagens de leitores em sites e blogues existem para todos os gostos. Conforme as circunstâncias, são menos, ou mais, apaixonadas; menos, ou mais, agressivas; menos, ou mais, refletidas; menos, ou mais, indiferentes aos fatos.

Raras, em geral, são aquelas cujos autores se deram ao trabalho de fazer a lição de casa, antes de se pôr a digitar suas opiniões – quaisquer que sejam.

O que se lerá a seguir é uma carta publicada anteontem no Boston Globe, da cidade de mesmo nome em Massachusetts, Estados Unidos. O autor se chama Richard M. Nasser. O assunto não tem nada a ver com o Brasil. Mas a construção de sua mensagem tem tudo a ver com um componente fundamental da atitude do público em relação à imprensa, onde quer que seja.

Transcrevo-a, traduzida, porque me parece um modelo de manifestação: atenta, fundamentada, rica em substantivos e econômica em adjetivos e advérbios. É um exemplo de observação de mídia, em que o observador entra no assunto sabendo do que diz – e, principalmente, sem bater.

O jornal a publicou sob o título "Pondo palavras na boca do Irã". Lá vai:

“A matéria da Associated Press de 30 de julho, ‘Citando a ameaça iraniana, Olmert apóia decisão americana de aprimorar o arsenal saudita’ (página A8) repete a acusação de que o líder do Irã ‘repetediamente pregou que Israel fosse varrido do mapa’.

Uma simples pesquisa na web sobre o discurso em questão mostrará que o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse, na realidade, que ‘o regime que ocupa Jerusalém precisa desaparecer da página do tempo’, comparando o destino do sionismo ao da União Soviética – uma anomalia histórica cujas contradições internas demonstrarão serem insuportáveis.

Note o termo passivo ‘desaparecer’, não o ativo ‘varrido do mapa’. Note ‘regime’, não ‘Israel’. Note que a palavra que designa ‘mapa’ em farsi [o idioma falado no Irã] não consta do original, sugerindo ainda mais que Ahmadinejad se referia a um sistema político, não a um país.

Não estou interessado em reabilitar o ridículo Ahmadinejad, nem em discutir os méritos do sionismo. Simplesmente lembro como as fabulações das armas de destruição em massa nos prepararam para a guerra no Iraque e estou inquieto com o potencial dessa nova lenda para provocar um desastre semelhante.”

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