Crime e castigo (1866)

Ediouro Publicações. 7a. edição. Fiódor Dostoiévski.

Segunda parte

Capítulo 2

"Na ponte Nikolaievski, Raskolnikov voltou outra vez a si, em conseqüência de um acontecimento muito aborrecido. O cocheiro de um carro particular deu-lhe com o chicote fortemente nas costas por ter sido quase atropelado pelos cavalos, isso depois de lhe ter gritado duas ou três vezes. Saltou de um pulo para o lado da ponte, rangendo os dentes de raiva. À sua volta, ouviram-se várias risadas.
- Bem feito!
- Quem manda ser vadio?
- Vai ver se fingiu de bêbado e se atirou de propósito debaixo das rodas para depois pedir indenização…
- Há quem viva disso, há quem viva disso." Pág. 89

Capítulo 4

"- E está a par dos pormenores?
- Não, mas há nesse caso uma outra circunstância que me interessa, e que já se tornou, por assim dizer, um problema. Já não falo da delinqüência entre as classes baixas, que sofreu um grande incremento nos últimos cinco anos. Também não falo dos contínuos roubos e incêndios. O mais estranho, para mim, é que também nas classes elevadas da sociedade aumentou a criminalidade. Aqui um antigo estudante assalta uma carruagem de correio em plena estrada, ali indivíduos de idéias avançadas e boa posição social se põem a fabricar moeda falsa, mais adiante, em Moscou, prendem um bando de falsários que operavam com a loteria… e vê-se que um dos principais implicados é um catedrático da História Universal. E agora se descobre que essa velha foi assassinada por algum indivíduo das classes altas, uma vez que os camponeses não têm objetos de ouro para empenhar. Como explicar este desenfreamento de uma boa parte da nossa sociedade civilizada?" Pág. 118

Capítulo 5

"E, pegando em Raskolnikov pelo ombro, empurrou-o para o meio da rua. Ele deu um tropecão, mas não chegou a cair. Endireitou-se, olhou em silêncio para todos os espectadores e continuou o seu caminho.
- Que indivíduo mais estranho! - disse o operário.
- Hoje todo mundo é estranho - disse a mulher." Pág. 131

Quinta parte

Epílogo

"Invocou-se a este respeito a novíssima teoria, que então estava na moda, da alienação mental temporária, que freqüentemente se esforçam por aplicar a alguns deliqüentes. Além disso, o recente estado de hipocondria de Raskolnikov foi firmemente testemunhado por muitos: pelo dr. Zosimov, pelos seus antigos colegas, pela senhoria e pela criada. Tudo isto contribuiu para a conclusão de que Raskolnikov não era de maneira alguma um assassino ou um ladrão vulgar, mas que era preciso ver nele um caso diferente. Com enorme contrariedade da parte dos que sustinham esta tese, o próprio criminoso quase não fazia nada por defender-se. À pergunta: 'O que o teria induzido ao homicídio e a cometer o roubo?', respondeu com a mais brutal sinceridade que a causa de tudo fora a sua situação de miséria e de desamparo, o desejo de iniciar os primeiros passos na vida com o auxílio, pelo menos, de três mil rublos, que esperava encontrar em casa da vítima. Decidira também pelo crime devido ao seu desorientado e fraco caráter, agravado pelas privações e pelas frustrações. À pergunta sobre o motivo por que se sentira impelido a denunciar-se, respondeu que o fizera por um sincero arrependimento." Pág. 283-284

del.icio.usYahooMyWebdigg

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License